Por Samuel Gomide – Presidente do Sindicato dos Empregados Públicos de Franca e Região
Maior sindicato do mundo, a central chinesa ACFTU provoca debate: força organizativa sem autonomia?
Com centenas de milhões de filiados e presença massiva nos locais de trabalho, a ACFTU é peça-chave da mediação trabalhista na China — mas opera sob a tutela do Partido Comunista. O contraste ajuda a enxergar a encruzilhada do sindicalismo brasileiro.
A Federação Nacional dos Sindicatos da China (ACFTU — All-China Federation of Trade Unions) é frequentemente descrita como a maior estrutura sindical do planeta. Os números impressionam: cerca de 300 milhões de membros e uma capilaridade que alcança milhões de organizações de base, estruturada em 31 federações regionais e 10 sindicatos industriais nacionais.
No entanto, o gigantismo, por si só, não explica o essencial. O modelo chinês opera em um arranjo institucional radicalmente diferente do brasileiro. É justamente por isso que olhar para essa experiência — sem idealizações e com senso crítico — pode iluminar dilemas reais do nosso próprio movimento, especialmente no serviço público.
“Harmonia industrial” e liderança partidária: o centro do modelo
Ao contrário das tradições sindicais ocidentais, pautadas pela autonomia e pelo confronto, a ACFTU atua alinhada às diretrizes políticas de Pequim. O próprio estatuto da entidade define os sindicatos chineses como organizações subordinadas à liderança do Partido Comunista da China (PCC).
Isso explica por que a central é associada à busca por mediação e estabilidade social. O objetivo central é canalizar conflitos, reduzir tensões e organizar demandas dentro de um desenho institucional fortemente coordenado pelo Estado.
Na prática, esse modelo entrega resultados concretos na oferta de serviços, assistência social e intermediação de conflitos — inclusive diante de desafios modernos, como a precarização na economia digital e de plataformas. Por outro lado, a dependência governamental limita a autonomia da base e anula a capacidade de enfrentamento quando os interesses do trabalhador colidem com os do regime.
O que o Brasil pode aprender — e o que não deve copiar
No Brasil, apesar de todas as contradições históricas, o sindicalismo nasceu e se fortaleceu como uma expressão de pluralidade social e disputa pública. Há espaço para a divergência, a mobilização, a negociação e, quando necessário, a greve. Por isso, a comparação com a China funciona mais como um espelho do que como uma receita pronta.
Três lições úteis da experiência chinesa:
- Capilaridade importa: A presença cotidiana no chão de fábrica ou na repartição pública é o que torna o sindicato relevante no dia a dia.
- Proteção social organiza: Quando a entidade resolve problemas reais e oferece suporte prático, ela fortalece o sentimento de pertencimento do trabalhador.
- Estratégia e planejamento: Uma estrutura forte não é feita apenas de números, mas de método, organização e constância.
Três alertas que não podemos ignorar:
- Sindicato não é braço burocrático: Sem autonomia política e financeira, a entidade perde o vínculo vital com a sua base.
- Cooperação não significa submissão: O diálogo com governos e patrões é necessário, mas deve preservar a total liberdade para divergir.
- Sem participação, vira vitrine: A instituição que fala sobre os trabalhadores, mas não escuta as suas bases, esvazia sua própria legitimidade.
Intercâmbio internacional precisa ser crítico
A ACFTU mantém relações ativas com entidades globais. No Brasil, são conhecidos os encontros e intercâmbios da central chinesa com a CUT e outras confederações, focados no diálogo sobre o mundo do trabalho e na atuação de empresas chinesas em solo brasileiro. Esse diálogo internacional é legítimo e importante, mas exige um olhar atento às profundas diferenças de regime político, garantias democráticas e espaço real para a livre expressão dos trabalhadores.
Intercâmbio Brasil–China existe, e deve ser crítico
A ACFTU mantém relações com entidades de outros países. No Brasil, há registros de encontros e intercâmbios com participação da CUT e outras centrais, voltados ao diálogo sobre temas trabalhistas e relações com empresas chinesas instaladas aqui.
Esse diálogo internacional é importante — mas precisa ser crítico e atento às diferenças de regime político, garantias democráticas e espaço real para a voz dos trabalhadores.
O desafio brasileiro: autonomia, base e reinvenção
O sindicalismo brasileiro vive uma encruzilhada histórica, marcada pelo sufocamento financeiro, ataques à sua legitimidade e pela fragmentação causada pelas novas formas de contratação (como a terceirização e a uberização), que enfraquecem a proteção coletiva.
Para nós, empregados e servidores públicos, esse cenário se agrava com as pressões por austeridade fiscal, congelamentos salariais e tentativas contínuas de desvalorização das carreiras. Diante disso, a independência sindical deixa de ser um detalhe teórico para se tornar a nossa maior ferramenta: ela garante que o sindicato seja, ao mesmo tempo, uma ponte para o diálogo e um escudo na defesa de direitos.
Que sindicato queremos ser em Franca e Região?
A experiência da ACFTU nos mostra a força de uma estrutura gigante, mas também revela o risco de um sindicalismo sem plena autonomia. A nossa tarefa em Franca e região caminha no sentido oposto: precisamos fortalecer um modelo democrático, altivo e enraizado na base. Uma entidade capaz de dialogar com qualquer governo, mas que não se curve a nenhum quando os direitos dos trabalhadores e a qualidade do serviço público estiverem em jogo.
E você, trabalhador do serviço público de Franca e Região: como enxerga hoje o papel do nosso sindicato na sua vida profissional e nas lutas coletivas da nossa categoria?























