Ter consciência de classe nada mais é do que entender de qual lado da mesa você senta. Se você depende do seu salário para pagar as contas e sustentar a família, você pertence à classe trabalhadora. E os seus interesses são completamente diferentes dos interesses de quem compra a sua força de trabalho.
Na prática diária, isso muda tudo:
- Problema coletivo, solução coletiva: Aquela cobrança abusiva, o salário apertado ou a falta de estrutura não são falhas individuais de um colega; fazem parte de uma engrenagem que busca lucrar mais gastando menos com pessoas.
- O sindicato não é balcão: A entidade sindical não existe apenas para tirar dúvidas jurídicas, mas para organizar a pressão, seja paralisação, greve, protesto, abaixo-assinado, ação judicial coletiva, contra quem tem o poder econômico. Sozinho, o trabalhador é frágil; organizado socialmente, ele para a produção, contrabalanceia o poder econômico da classe dominante, ou seja, da classe dos patrões, capitalistas e empregadores em geral.
- Sem ilusão: Discursos que vendem “flexibilização” e “seja o seu próprio patrão” costumam esconder apenas uma coisa: corte de garantias históricas e direitos conquistados com muito suor, sangue, esforço, resiliência, coragem e em busca de justiça.
A luta não termina no chão de fábrica: ela passa pela urna
Não adianta nada o trabalhador cruzar os braços na greve, vestir a camisa nas negociações salariais e, no dia da eleição, apertar o botão para candidatos(políticos que votam contra o trabalhador).
Projetos de lei que congelam salários, autorizam terceirizações irrestritas, destroem planos de carreira e enfraquecem sindicatos não nascem do nada: eles são aprovados por políticos eleitos com votos da própria classe trabalhadora.
O patrão vota pensando no lucro dele e nos projetos que cortam os custos com mão de obra. O trabalhador precisa votar pensando no prato na mesa, na estabilidade do emprego e no futuro da sua categoria.
Consciência de classe é isso: não entregar o seu voto a quem governa e legisla para retirar o seu sustento. Antes de escolher, pesquise o histórico: se esse candidato já votou contra os direitos trabalhistas? Apoia terceirização de serviços essenciais? Defende o serviço público e o emprego formal?
Quem trabalha, vota em quem defende quem trabalha. Não vote contra você mesmo.
O trabalhador do setor público também é trabalhador
A discussão sobre consciência de classe não termina na empresa privada, no comércio ou no chão de fábrica.
O servidor público é um trabalhador que exerce suas atividades em nome do Poder Público para atender às necessidades da população. Professores, profissionais da saúde, servidores administrativos, trabalhadores da assistência social, agentes de segurança, profissionais da limpeza urbana, técnicos e inúmeras outras categorias participam diariamente da execução das políticas públicas.
A Constituição Federal estabelece que a Administração Pública direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios deve obedecer aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Também estabelece regras constitucionais relacionadas aos cargos, empregos e remuneração no serviço público.
Isso significa que debater a respeito do trabalhador do serviço público é também discutir a qualidade do serviço oferecido ao cidadão.
Quando um professor entra em uma sala de aula, quando um profissional de saúde atende um paciente, quando um servidor orienta um cidadão ou quando uma equipe pública executa uma política social, existe uma relação direta entre trabalho, Estado e sociedade.
Por isso, questões como remuneração, carreira, formação profissional, condições de trabalho, dimensionamento das equipes, equipamentos e estrutura física não dizem respeito apenas ao servidor.
Elas também dizem respeito ao cidadão que utiliza o serviço público.
A própria Constituição determina que a prestação de serviços públicos é incumbência do Poder Público, diretamente ou por meio de concessão ou permissão, conforme a legislação.
Assim, qualquer debate sobre redução de despesas, reorganização administrativa, terceirização, concessões, contratação de pessoal ou mudanças nas carreiras públicas deve considerar não apenas o impacto financeiro, mas também os possíveis efeitos sobre os trabalhadores e sobre a população que depende desses serviços.
A luta não termina no local de trabalho: ela também chega à urna
As relações de trabalho não são determinadas somente dentro das empresas ou dos órgãos públicos. Leis, políticas econômicas, reformas administrativas, regras previdenciárias, legislação trabalhista e decisões orçamentárias são discutidas e implementadas por instituições do Estado e por representantes eleitos.
Por isso, o período eleitoral também representa um momento para analisar propostas e históricos políticos relacionados ao mundo do trabalho.
Projetos que alteram salários, carreiras, formas de contratação, direitos trabalhistas, organização sindical ou estrutura dos serviços públicos passam pelo processo político e institucional. As posições dos candidatos sobre esses temas podem ser verificadas por meio de seus programas, declarações públicas e, no caso daqueles que já exerceram mandatos, de seu histórico parlamentar.
Algumas questões precisam ser refletidas para compreender, concretamente, como:
Como esse candidato se posiciona diante dos direitos trabalhistas?
O que propõe para os serviços públicos?
Qual é sua posição sobre servidores e carreiras públicas?
Como trata temas como terceirização, contratação, previdência e negociação coletiva?
Como votou em matérias relacionadas ao trabalho e ao serviço público, quando teve mandato?
O voto e a consciência de classe
O voto permite que diferentes projetos de sociedade sejam apresentados à população. Para o trabalhador, conhecer a própria realidade social pode significar também acompanhar as decisões que afetam seu salário, emprego, aposentadoria, direitos, categoria profissional e acesso aos serviços públicos.
O empregador possui seus interesses econômicos. O trabalhador possui os seus. O servidor público possui reivindicações relacionadas à sua carreira e às suas condições de trabalho, mas também está inserido em uma relação mais ampla com os cidadãos que utilizam os serviços públicos.
Por isso, consciência de classe não precisa significar votar automaticamente em determinado partido ou candidato. Pode significar, antes de tudo, não abrir mão da capacidade de analisar criticamente os projetos colocados em disputa.
Antes de votar, vale a pena pesquisar.
Quem já exerceu mandato deve ser analisado também pelo que fez, e não apenas pelo que promete. Quem disputa uma eleição pela primeira vez pode ser avaliado por suas propostas, trajetória pública e compromissos apresentados ao eleitor.
A democracia não termina na urna. Mas a urna é um dos espaços em que a sociedade decide quais projetos políticos terão legitimidade para governar, legislar e administrar recursos públicos.
Para o trabalhador, conhecer seus interesses, conhecer seus direitos e conhecer as propostas em disputa é parte da participação política.
Consciência de classe também é consciência sobre o valor do próprio trabalho, sobre a importância dos serviços públicos e sobre as consequências das decisões políticas para quem trabalha e para quem depende do trabalho de outros para garantir direitos e serviços essenciais.
Antes de apertar a urna eletrônica, informação também é uma forma de participação.





























